Outro dia sonhei que era um lobo. Eu corria num campo de batalha, entre dois exércitos inimigos, mas ninguém queria lutar comigo. Eram todos mais rápidos do que eu e fugiam em disparada quando eu me aproximava. Na verdade, eles não fugiam, simplesmente me ignoravam. Acho que estava no Valhalla, onde vivem os guerreiros caídos em batalha na mitologia nórdica, mas aquela glória estava sendo negada a mim, e não sei exatamente o porquê disso. Nos últimos meses, desde que comecei minha jornada, sou assombrado pela figura de um viking, todo feito de cabelos e barba desgrenhados. É ele que surge quando não encontro motivos para sair da cama, dizendo "levanta, seu merda". Diante daquele olhar, sou obrigado a obedecer, e por um bom tempo vivi sob a censura dele, como se estivesse fazendo algo errado. Até o dia em que acordei sufocando. Passado o susto inicial, tal como um guerreiro atacado na alvorada, lutei por duas horas na companhia de outros três, cada um cumprindo seu papel. E por mais que o garotinho assustado dentro de mim só quissesse ser cuidado, aquela era uma batalha só minha, a qual lutei nos meus termos. No fim, conquistei a vitória de maneira honrada, sem nenhum procedimento que me comprometesse, por mais difícil que tenha sido. Então deitei novamente, agora para curtir um merecido descanso, meus espólios de batalha. Nisso o viking surgiu diante dos meus olhos, invisível para os demais, mas para mim tão real quanto qualquer outra pessoa, e seu olhar era de aprovação. Finalmente eu havia recuperado o prazer da batalha. Não só isso, mas aceitado a luta como parte integral da minha existência, sem nenhuma vergonha no fato. Muito pelo contrário. Naquele momento fui tomado por uma súbita emoção e não contive as lágrimas. Que interpretassem aquilo da maneira que quisessem, porque não devo mais nada a ninguém, não agora, quando descobri que posso lutar por mim mesmo. Eu estava curtindo meu Valhalla particular e ninguém me tiraria isso. Com o tempo, a vida retomou seu ritmo normal, assim como a guerra, que sempre fez parte dela, ainda que eu tenha tentado negar esse fato. É difícil explicar. Essa experiência me faz valorizar cada segundo de vida, mas também envolve tudo com uma certa melancolia, que só pode ser comparada a sensação de um veterano de guerra ao voltar para casa, vendo as coisas sob uma perspectiva diferente. Acho que sempre sentimos falta das coisas que deixamos pelo caminho, companheiros de batalha que ficaram para trás, seja porque morreram ou seguiram seus próprios caminhos. É o luto que acompanha a luta. Mas quando a noite chega, sou tomado pelas lembranças, então tenho meus sonhos de lobo, nos campos de batalha do além-mundo, onde procuro alguém com quem brigar, seja lado a lado ou contra. Só que a mensagem é clara: essa luta é minha e de mais ninguém. E se posso lutar por mim mesmo, também posso prover para mim mesmo, deixando de ser um sobrevivente e virando um guerreiro, aquele que escala a montanha sem medo. Chegar ao topo dela pode ser difícil e duro, mas o Valhalla é tão real quanto o viking que não me deixa desistir, esse fogo dos deuses que me impele para frente, por pior que sejam as circunstâncias. Afinal de contas, o que eu sou?
Um garotinho? Um homem? Um deus? Quem sabe um pouquinho de cada.
Um garotinho? Um homem? Um deus? Quem sabe um pouquinho de cada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário